O DRIBLE - Sérgio Rodrigues



“O drible”, de Sérgio Rodrigues

A.


Entre Corinto e Tebas, Édipo encontra o velho. Édipo, imaginando saber de tudo – afinal se afastara de Corinto para não cumprir uma profecia –, posta-se, arrogante, diante do outro. Eles discutem. Laio, o velho, irá morrer, mas a tragédia que após isso recairá sobre Édipo é de dimensões aterradoras. (Sim, como sabemos, uma mulher cometerá suicídio.)

No Rocio, um recorte da Mata Atlântica na região serrana do Rio, Neto encontra o Murilo Filho. Neto imagina saber de tudo: do passado no qual foi vítima às mãos do velho, do desprezo do velho pela mãe, da vilania do velho. Murilo Filho, o velho, também irá morrer em breve, os médicos o condenaram. Mas isso tudo é apenas o começo de algo bem maior. (Sim, como sabemos, uma mulher cometerá suicídio.)

Neste seu terceiro romance (os primeiros são “As sementes de Flowerville” [2006] e “Elza, a garota” [2009]), Sérgio Rodrigues se dispõe a um voo mais alto, e desde já tem sua obra referenciada como uma das principais de 2013.

O romance é exemplar na sua arquitetura: a escolha do narrador (ou narradores) contribui sobremaneira para isso. Na overture, que mais de um crítico já classificou como antológica, temos um narrador muito aproximado, colado, dialogando com o personagem Neto, que só nos será apresentado no último parágrafo da tal abertura (p. 14). Esse efeito nos joga de cara no turbilhão da narrativa e do cenário, pois até aquele momento é conosco que o romance fala. No próximo capítulo (If you had a friend like Ben), o narrador toma a distância sadia e sádica dos clássicos narradores em terceira pessoa, embora, em certos juízos e metáforas, esse narrador se revele mais intrometido do que o aconselhável. Por fim, há um terceiro narrador, Murilo Filho, o velho, que está escrevendo sobre o grande jogador Peralvo (Por que Peralvo não jogou a copa). Esse jogo de foco e de discursos não é gratuito ou pirotécnico, antes se mostrará essencial à trama, como se saberá mais tarde.

Apesar de estar eivado de futebol, o livro não é sobre isso. O livro é sobre família, sobre a ancestral, a helênica, a edipiana relação entre pai e filho.

B.


Sérgio Rodrigues nasceu em Muriaé, MG, em 1962 (ano do bicampeonato, no Chile), e se mudou para o Rio de Janeiro, em 1980. Exerceu, entre outras atividades, a de jornalista esportivo, cobrindo, por exemplo, a Copa de 1986, a copa de Maradona. Naturalmente, dessas experiências retirou vários subsídios que mais tarde seriam engajados ao universo de “O drible”. Além disso, o escritor mantém o blog todoprosa, um dos espaços mais interessantes sobre literatura na web brasileira. E, por fim, abastece ainda o blog sobrepalavras, também hospedados em Veja.com, com curiosidades linguísticas e etimológicas.

Todo o inventário acima é necessário para que possamos compreender quatro dos pontos altos do romance em questão. A inundação de cultura pop dos anos 1960-1980 que atravessa o universo de Neto (por exemplo, p. 17: Batmóvel, Maverick,  Túnel do Tempo, De volta para o futuro). A afinidade com o futebol e suas histórias e lendas, suas superstições e seus protagonistas (p. 47: El Tigre Friedenreich, Leônidas Diamante Negro, Orlando Pingo de Ouro, Ademir Queixada, Telê Tijoleiro, Garrincha, Pelé). O uso coerente, nunca exagerado, de recursos por assim dizer literários, intertextualidades e metalinguagens (p. 42: “Você é um homem, Neto! Neto, você é um homem” – ver cap. 34 de Dom Casmurro). E um delicado equilíbrio entre o registro mais coloquial e o mais erudito: tudo isso se junta em uma obra digna, sem dúvida.

C.


“O drible” – o título é um achado.

Numa primeira dimensão, a mais óbvia, somos remetidos ao famoso quase-gol de Pelé na semifinal da Copa de 1970 contra o Uruguai. Ali, Pelé dribla de maneira magistral o goleiro uruguaio Marzukiewicz, porém não consegue o tento. Todos os leitores minimamente alfabetizados no quesito futebol conhecem a cena. Esse é o primeiro drible. O segundo é o aplicado pelo narrador: aquela voz próxima das primeiras páginas retorna nas finais e somos jogados à continuação da cena inicial, percebendo, como bons adversários, que fomos driblados; percebendo, enfim, a parábola de um drible da vaca. O último é o maior de todos: é aquele aplicado por Murilo Filho no ingênuo Neto.

“Os dribles” também não resultaria em um título mentiroso.

Desse universo se apartam os dois murilos já citados, o Filho e o Neto. São os protagonistas do romance.

Neto é um homem de 47 anos, revisor de provas de livros de autoajuda, preso ao universo pop dos já citados anos 1960-1980, dirige um Maverick preto 1977, pateticamente apelidado de Batmóvel. É sintomática a referência, logo nas páginas de apresentação, ao "Rei do Pop", Michael Jackson. Assim como Michael, Neto se nega a crescer, envelhecer, virar homem. Nasce daí, inclusive, uma das poucas ressalvas, quanto à narrativa. Na intenção de ser cruel e sarcástico, de escancarar a personalidade de Neto, num quase discurso indireto livre, o narrador faz uso de alguns juízos de valores (p. 36: “O nome dela era Gleyce Kelly, obra cruel de outro pai, quem sabe sem coração como o seu mas provavelmente sem noção de coisa alguma, a ponto de supor que a princesa de Mônaco fosse chamada de Grace por ignorância do povo burro – aquela gente que falava pobrema, TV Grobo e apricação de emprasto.” Esta, uma das poucas saídas fáceis do romance) e sarcasmos (como o nome da banda de Neto: Kopo Deleche e Kopo Derrum [respectivamente, Copo de Leite e Copo de Rum]) que beiram o mau gosto.

Por outro lado, Murilo Filho é o canalha, num primeiro momento. O velho cronista esportivo, o Dickens de Campos Sales, oriundo da pequena Merenquedu, narrador da história de Peralvo, um brilhante jogador que teve um fim trágico, chegou ao patamar de reconhecimento que ocupara graças à bajulação ao regime militar, à leviandade com a qual tratou o casamento e à maneira humilhante como fustigou o filho nos primeiros anos deste.

Todo o cenário está armado para uma lógica maniqueísta: o velho é mal, Neto é a vítima. Mas aí somos driblados.

À medida que o livro se impõe, diferente do que se esperava, não é a Neto que o leitor dedicará empatia, é a Murilo Filho. Quase nos afeiçoamos a ele.

(Já Neto é o que chamamos de chato, inconveniente, preso àquele universo kitsch, retrô... Sustentado pela herança deixada pela mãe, cultor de uma efêmera lembrança de um efêmero sucesso que sua efêmera banda teve em meados dos anos 1980. Conquistador meticuloso, no pior sentido desse termo, de meninas classe C- e D+ oferecendo-lhes vislumbres de uma falsa sofisticação e, no íntimo, concordando que elas só merecem aquilo mesmo: a esperança postiça de uma possível ascensão social.)

D.


Murilo Filho, nosso “vilão”, vai nos conquistando ao poucos. Boa parte da narração é dele, quer no livro sobre Peralvo, quer nas suas elucubrações esportivo-sociológicas sobre o futebol e o Brasil. Não são raros os momentos em que o narrador do romance vai para as coxias e deixa Murilo no proscênio. A acima aludida abertura do romance é, em essência, feita por Murilo. É ele quem cunha a frase-epítome do livro: “Pelé desafio Deus e perdeu.”

Importante também é o livro que Murilo Filho está escrevendo. Nos dois capítulos que nos são apresentados, encontramos uma narrativa saborosa, lúdica e engraçada. Onde são evocados ou emulados, Mário de Andrade, García Márquez e Mário Filho, a quem Sérgio Rodrigues se diz devedor. Se existisse como livro independente, já valeria por si só (todo o romance “O drible” nasceu dali, daquela semente: um jogador que tivesse poderes sobrenaturais, algo que Sérgio Rodrigues corrobora em entrevistas).

Sutilezas de quem entende da coisa: 1. A marcação do discurso direto na narrativa de Murilo Filho é feita com travessões (à maneira gálica), no resto do romance com aspas (à maneira anglófona); 2. A linearidade do livro de Murilo Filho está ausente no resto do romance. Só para citar dois exemplos do apuro formal da obra.

Em tudo, Murilo Filho difere de Neto. (Neto recebera a vida mãobeijadamente: a mãe, Elvira, antes de suicidar-se, deixa-lhe apartamento e ações.) Murilo Filho não, ele se construiu. Saído da pequena Merenquedu, apenas com o Segundo Grau, arranca à unha um espaço na imprensa carioca, e depois o amplia às custas de seu próprio talento. Transforma-se, basicamente sem favores, em uma referência na crônica esportiva brasileira. Em paralelo, aproveita o que sua nova situação oferece (e quem não aproveitaria?). Galanteador, conquistador, sedutor. Mais de um personagem feminino afirma: “Murilo é um homem bom". Ou "maravilhoso.” (pp. 46, 156)

E.


Seria também apressado tachar Murilo Filho como canalha. Ele tentou ser um bom pai. Com a morte de Elvira, Neto continua a ter um lar; a empregada Conceição, que Murilo fizera vir de Merequendu, substitui de certa forma a ausência materna; com sua influência, Murilo procura fazer de tudo para Neto tornar-se um jogador do América, mas parece que a inapetência reside no DNA do garoto. E mesmo quando este busca uma profissão, ou pelo menos uma formação, é na carreira de cronista do pai que se espelha. (Essa postura de Murilo é bem diferente da reação de Neto ao descobrir que Gleyce Kelly está grávida [pp.162,163]).

E se, no futuro, o filho vai encarar o pai como traidor por ter-lhe roubado a namoradinha, o que ocorre, em última instância, é que Neto não foi capaz de segurar sua garota diante de um velho. Acrescentando à equação o fato de o próprio Neto já ter roubado aquela mesma garota de seu melhor amigo. Ainda: a primeira experiência sexual de Neto fora na cozinha de casa com uma namorada do pai. É, no mínimo, incoerente a postura ofendida dele diante do fato: incoerente ou infantil, como ademais se passa com os outros meandros da psique desse personagem.

F.


Mesmo como narrador (na sua relação com Neto) e como arquiteto do grande drible que justifica o romance, Murilo Filho é, até certo ponto, transparente.

Neto tem um apelido pelo qual é chamado desde as primeiras páginas – “Tiziu”. Tiziu é um pássaro de plumagem escura, além disso é uma gíria pejorativa para pessoas negras. Nelson Rodrigues (que de relance aparece no livro, entre outros personagens reais) chama Neto de Cambaxirra – também uma ave de plumagem marrom-escura. Junte-se a tais elementos a presença recorrente de “Dom Casmurro”, o clássico de Machado de Assis, e a conta estaria praticamente fechada. Bastaria que o leitor e o próprio Neto deixassem de ser ensimesmados para entender o que Murilo Filho estava burilando.

Há ainda a teoria da dor futura. Ao apresentar a Neto a semifinal da Copa de 1958 (pp. 78.79, sobretudo), Murilo Filho seleciona lances bisonhos daquela que viria a ser uma das partidas mais interessantes de todos os tempos. Os elementos do grande jogo estavam todos ali naqueles dez minutos ocos do primeiro tempo, bastaria ao destino reorganizá-los para termos uma grande partida. Naquela parte do romance, os dados todos já estavam lançados faltava concatená-los. Faltava a Neto reconhecer a sua dor futura, mas obtuso do jeito que é deixou passar.

Ao final, como nos melhores romances policiais, o leitor observa uma série de pontas soltas sendo paulatinamente atadas. De canto de boca, ri com a esperteza de Murilo Filho.

Por décadas, Neto tentou fugir do encontro com o pai, do embate com o pai, mas não foi possível. Como um Édipo tupiniquim, foi alcançado pelo destino e sucumbiu. E só lhe resta angariar e conviver com as consequências: é o seu monólogo final, o encerramento do livro.

É simples. Édipo desafiou o destino e perdeu. Pelé desafiou Deus e perdeu. Neto desafiou Murilo Filho e perdeu.

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